O aumento dos custos de energia no Brasil vem redesenhando a estratégia financeira das empresas. Com encargos em alta e forte volatilidade nos preços, o tema ganha protagonismo e passa a ser tratado como um fator de risco dentro do ambiente corporativo.
Para Philipe Kilzer, diretor de operações estruturadas do Grupo Bolt, a mudança é estrutural. Segundo ele, considerar a energia apenas como custo fixo já não reflete a realidade atual, marcada por instabilidade e impacto direto no caixa das companhias.
Pressão sobre margens
Empresas de setores intensivos, como mineração, química, alimentos e celulose, estão entre as mais afetadas. Nesses casos, a energia pode representar de 8% a 25% da receita líquida, o que amplia significativamente o peso desse insumo na operação.
Além disso, margens EBITDA entre 12% e 18% tornam o cenário ainda mais sensível. Pequenas variações no custo energético podem comprometer resultados relevantes em curto prazo, afetando a sustentabilidade financeira.
Escalada de preços
A volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) evidencia o problema. Em 2024, o indicador saiu de cerca de R$ 61/MWh para mais de R$ 280/MWh em poucos meses, refletindo a instabilidade do mercado.
Na prática, uma empresa com consumo médio de 10 MWm pode ter um custo adicional de aproximadamente R$ 1,6 milhão por mês sem mecanismos de proteção. Assim, o impacto financeiro se torna imediato e significativo.
Enquanto isso, os encargos também avançam. A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) alcançou R$ 49,2 bilhões em 2025, com alta de 32% em relação ao ano anterior, ampliando a pressão sobre consumidores.
“Empresas que controlam câmbio e commodities ainda deixam a energia fora da gestão de risco”, observa Kilzer, destacando uma lacuna relevante na governança corporativa.
Cenário global e aprendizado
A crise energética europeia de 2022 serve como alerta. Naquele período, o aumento do preço do gás natural levou indústrias a interromperem operações por inviabilidade econômica.
Por outro lado, empresas protegidas por contratos de longo prazo conseguiram preservar margens. Esse movimento impulsionou a inclusão da energia nas decisões estratégicas globais.
No Brasil, o mercado livre já reúne mais de 85 mil consumidores e representa cerca de 40% do consumo nacional. Ainda assim, muitas empresas ingressaram nesse ambiente focadas apenas na redução de custos imediatos.
Riscos emergentes
Com a expansão do mercado livre e o avanço das energias renováveis, novas variáveis entram em cena. O curtailment, por exemplo, passa a afetar a previsibilidade da geração e a segurança dos contratos.
Dessa forma, a gestão energética exige uma abordagem mais sofisticada. Contratos e modelos de autoprodução passam a ser vistos como instrumentos de proteção financeira e não apenas operacionais.
Para o executivo do Grupo Bolt, a mudança de mentalidade é urgente. A discussão deixa de ser sobre custo e passa a focar na exposição e no impacto direto na geração de caixa das empresas.
Com atuação há mais de 15 anos, o Grupo Bolt reúne diferentes frentes no setor energético e faturamento superior a R$ 1 bilhão, consolidando-se como um dos principais players privados do país.
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