Panorama POP

Renan Barbosa cria ritual musical com “Segunda Sonora”

Toda segunda-feira, ao meio-dia, Renan Barbosa publica uma nova canção e convida o público para um encontro em torno da música. O cantor e compositor paraibano criou “Segunda Sonora”, série de registros acústicos ao vivo que vem conquistando espectadores desde novembro de 2025.

Os vídeos chegam ao Instagram @oficialrenanbarbosa com uma proposta simples e direta: voz, violão e entrega. Gravado em estúdio, mas preservando espontaneidade, o projeto transforma a rede social em uma extensão do palco e aproxima o artista de quem o acompanha.

O desafio de estar presente

“Segunda Sonora” nasceu da busca por uma maneira de se comunicar com o público fora dos shows. Renan aponta que as redes sociais facilitaram a divulgação do trabalho de músicos independentes, mas também criaram a exigência de produzir conteúdo e alimentar constantemente o algoritmo.

“Antes, o artista da música corria atrás de um selo que o lançasse, de um empresário que o representasse. Hoje, há mais facilidade, para um músico independente, de compartilhar suas criações, através das redes sociais e plataformas de streaming. Isso obriga o artista, entretanto, a se tornar um ‘marqueteiro’ de si mesmo, alimentar a necessidade voraz do algoritmo e produzir conteúdo.”

Fora do palco, Renan se define como naturalmente introspectivo e tímido. Ele conta que não sente necessidade de compartilhar o cotidiano e que evita a lógica das polêmicas e dos “cancelamentos”. No entanto, encontrou na interpretação musical uma forma coerente de permanecer próximo de seu público.

“Criou-se um dilema: entre um show e outro, como me comunicar com meu público e alcançar mais pessoas? A resposta veio como um lampejo: exercendo o meu ofício, fazendo o que faço no espaço sagrado do palco: cantar!”

Dessa maneira, a série mantém o foco no que move o artista. Sem depender de uma exposição cotidiana, Renan faz da música sua forma de presença e estabelece um compromisso semanal com os ouvintes.

Canção surpresa a cada semana

Não há anúncio prévio da música que será interpretada. A surpresa faz parte da identidade de “Segunda Sonora” e estimula os comentários de espectadores que, muitas vezes, relatam ter lembrado daquela composição ou de determinado autor pouco antes de assistir ao vídeo.

Em outros casos, o público conta que a letra parece dialogar com emoções e acontecimentos vividos naquele momento. Assim, cada publicação acaba recebendo uma resposta diferente, construída a partir da memória, do repertório e da experiência pessoal de quem escuta.

Renan grava os vídeos com camiseta básica e colar, acompanhado por Kaneo Ramos no violão. Parceiros há mais de dez anos, os dois trabalham com rigor técnico, mas decidiram privilegiar a emoção que emerge no instante da interpretação.

Kaneo também responde pelo registro em áudio, enquanto a equipe da Rosa de Todos os Ventos realiza a captação dos vídeos. A escolha por preservar possíveis imperfeições, sem abrir mão da qualidade, permite que as interpretações cheguem ao público com maior proximidade.

“O resultado são registros mais próximos do ouvinte, em que voz, sentimento e canção ocupam o centro da experiência.”

Sintonia que aparece na tela

A concentração de Renan e Kaneo nos vídeos também é percebida por quem acompanha a série. Segundo o artista, a seriedade que aparece diante das câmeras não representa distanciamento, mas a conexão entre os dois e o mergulho necessário para interpretar cada letra.

“Eu e Kaneo temos uma conexão maravilhosa e somos muito comprometidos com nosso fazer artístico. Ele é muito concentrado quando está ao violão; eu me conecto com as verdades da letra. Aquela seriedade, percebida nos vídeos, é o espelho da nossa sintonia fina. Nosso ofício exige um mergulho profundo. Não gostamos do raso.”

Os comentários deixados nas publicações revelam o efeito dessa escolha. “Em cada interpretação você se reinventa”, escreveu um dos fãs. Outro definiu uma das versões como “um cantar hipnótico”.

Uma espectadora resumiu a relação criada com o projeto: “Que canto mais lindo o seu, Renan. Você tornou a segunda um dia especial, com interpretações belíssimas que tanto nos acalentam.” Outro comentário reforça: “A Segunda Sonora já faz parte das nossas vidas. Gostamos tanto que fica fácil dividi-la com os nossos.”

Há ainda relatos de quem vê a série como uma pausa de acolhimento na rotina. “Não sei explicar por que, mas é terapêutico para mim. Eu assisto várias vezes, todos os vídeos”, contou uma espectadora. Entre centenas de feedbacks, a expectativa pela próxima canção é constante, e Renan diz já ter recebido pedidos carinhosos para não interromper o projeto.

Do forró à canção brasileira

Nascido em Campina Grande, na Paraíba, e radicado em São Paulo há mais de 30 anos, Renan tem no forró e nas raízes nordestinas referências fundamentais. Ao mesmo tempo, construiu uma relação ampla com a canção brasileira e interpreta sambas, baladas, pop/rock e obras de diferentes vertentes.

O projeto já percorreu repertórios bastante distintos, como “Anos Dourados”, de Tom Jobim e Chico Buarque, e “Alvejante”, composição de Céu Maia eternizada pelo dueto de Priscila Senna e Zé Vaqueiro. Criações autorais e músicas escritas especialmente para sua voz também aparecem nas publicações.

Cria dos tropicalistas, Renan se apropria de canções que o comovem. A escolha não parte de uma única estética, mas da possibilidade de contar histórias e se conectar profundamente com a letra interpretada.

Novos formatos e trajetória

Em junho, “Segunda Sonora” deixou temporariamente o formato de voz e violão para receber a sanfona de Cleber Silveira, em uma sequência dedicada a clássicos do forró. Em outubro, o projeto ganha uma nova formação, desta vez com voz e baixo acústico.

Em novembro, a série completa um ano de lançamentos semanais. O projeto também já inspirou um show homônimo, que estreou em Campina Grande em dezembro passado. Se depender de Renan e Kaneo, a proposta seguirá em movimento.

Renan estreou nos palcos em 1988 com a canção autoral “Destino”, premiada como melhor letra em um festival de música. Após passar 12 anos em Ribeirão Preto, mudou-se para São Paulo em 2005 e se apresentou em SESCs, centros culturais e teatros da capital paulista e da Paraíba.

Em 2011, produziu e estrelou “Os Homens de Chico”, no SESC Pompeia, espetáculo dedicado aos personagens masculinos da obra de Chico Buarque. No ano seguinte, integrou o Coletivo Cabeu. Seu primeiro álbum solo, A Voz do Agora, chegou em 2014, seguido pelos EPs Não sou melhor do que tu, de 2019, e Humano, demasiado insano, de 2021.

Em 2024, o cantor lançou “Jeito Manhoso”, dueto com Sandra Belê em homenagem a Marinês. Em 2025, veio o EP Canto do Homem de Um Lugar, com destaque para “Pétala Por Pétala”, de Chico César e Vanessa Bumagny. Atualmente, Renan alterna os shows “Canto do Homem de Um Lugar” e “Negras Maravilhas”, este último dedicado a autores negros brasileiros e com apresentação marcada para 29/10, na Embaixada Preta, em São Paulo.

Inspirado por artistas como Simone, Maria Bethânia, Elba Ramalho, Nana Caymmi, Ney Matogrosso, Elis Regina, Cássia Eller, Alcione e Cauby Peixoto, Renan afirma que a música é o centro de sua trajetória e da relação construída com o público.

“Não faço com essa intenção, mas são frequentes os relatos de que as pessoas se sentem em paz, acolhidas, abraçadas, quando me escutam. Eu realmente creio que só a música pode unir o Brasil. E, se a minha voz está trazendo algo de bom às pessoas, isso é a minha definição de sucesso. Minha preocupação não é com número de seguidores, com retorno financeiro, nada disso. Cantar é o que me move. Adoraria que aparecessem marcas de camisetas e de acessórios para uma parceria, ou que o projeto tivesse um apoiador, mas, enquanto isso não acontece, sigo adiante. Música em vez de rancor!”

Serviço

Foto: Caio Franzoi

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