Primeiro disco de inéditas do grupo em dez anos, “No Dia Que Tudo Mudou” marca a formação em duo e também reúne Lirinha, Flor e Yego
O Medulla precisou interromper a própria história para descobrir como continuá-la. Após um hiato de cinco anos, a retomada dos palcos e uma reconstrução artística conduzida pelos gêmeos Keops e Raony, o grupo acaba de lançar “No Dia Que Tudo Mudou”, seu primeiro álbum de inéditas em uma década.
Com participações de Urias, Lirinha, Flor e Yego, o disco apresenta oito faixas sobre rupturas, medo e a coragem de abandonar versões de nós mesmos que já não dão conta de quem nos tornamos. O lançamento também consolida a transformação da antiga banda em um duo centrado na conexão artística entre os irmãos.
Produzido pelo Medulla com Los Brasileros, o álbum combina composições escritas em diferentes momentos dos últimos dez anos e um processo de gravação desenvolvido durante dois. Jazz, R&B, beats eletrônicos, sons corporais e diferentes matrizes da música brasileira se encontram em um trabalho que não tenta recuperar o passado do grupo.
“Nossa vida é marcada por pontos de virada e por essa busca constante pelo novo momento. As músicas nasceram nos últimos dez anos das nossas vivências e verdades. Esperamos tocar as pessoas que também têm esse coração inquieto”, afirmam Keops e Raony.
Uma volta construída em etapas
O hiato terminou em 2023, quando o Medulla lançou “Fuder e Dormir Juntim” e voltou aos palcos. Poucos dias depois, apresentou-se no Lollapalooza Brasil com Lucas Silveira e Jup do Bairro.
A apresentação restabeleceu a conexão com o público, mas ainda não respondia qual seria o futuro do projeto. Depois de mudanças na formação, Keops e Raony decidiram não reconstruir a banda como ela existia antes da pausa.
Em sua nova configuração, os irmãos assumiram o Medulla como duo e reorganizaram o processo criativo. A ligação entre os gêmeos passou a conduzir não apenas as músicas, mas também os vídeos, a direção de arte e a construção dos shows.
“Esse álbum é a coragem de ir com medo mesmo, pagar para ver o que pode acontecer se a gente resolver mudar o rumo da vida”, resumem.
Nascidos em Pernambuco e criados entre Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, os dois carregam uma trajetória marcada pelo deslocamento. No álbum, essa experiência aparece na inquietação diante de escolhas, relações e identidades que deixaram de fazer sentido.
Urias amplia o novo universo do Medulla
As participações aproximam artistas de diferentes gerações e cenas. Urias leva para o projeto sua ligação com o pop eletrônico, a performance e a experimentação contemporânea. Lirinha acrescenta a força poética de uma trajetória atravessada pela literatura, pela música nordestina e pela pesquisa sonora.
Flor e Yego completam o grupo de convidados. Em vez de funcionarem como intervenções desconectadas, os encontros revelam diferentes dimensões de um repertório que se recusa a escolher um único gênero.
Entre as referências citadas pelo Medulla estão Lenine, Otto, Chico Science & Nação Zumbi, Marisa Monte e Carlinhos Brown. Os irmãos se aproximam de uma geração que transformou a mistura entre instrumentos orgânicos, recursos eletrônicos, canção popular e pesquisa rítmica em linguagem própria.
Respiração e beatbox constroem o disco
A experimentação começa no próprio corpo de Keops e Raony. Durante as gravações nos estúdios da Head Media, beatbox, respirações, efeitos vocais e ruídos corporais foram registrados, recortados e transformados em bases, batidas e texturas.
A escolha conecta diretamente a produção ao conceito do álbum. As letras falam sobre decisões capazes de provocar medo, ansiedade e movimento enquanto os arranjos carregam a respiração e as tensões físicas dos artistas.
Os sons corporais convivem com instrumentos orgânicos, processamento eletrônico e referências contemporâneas de jazz e R&B. A mixagem é assinada por Marcelinho Ferraz e Daniel Pampuri, profissionais vencedores do Grammy e com trabalhos ligados a nomes como Karol G e Beyoncé.
Dois corpos vivem um único conflito
A transformação do Medulla continua nos vídeos criados pelo duo em parceria com Léo Silva. Gravadas em dois dias, as produções utilizam pequenas situações urbanas para representar as disputas internas que antecedem uma mudança.
Nas imagens, Keops e Raony interpretam uma única pessoa dividida em dois corpos. Um representa o impulso de romper com o passado; o outro tenta conservar a estabilidade do que já é conhecido.
A condição real dos gêmeos se converte, assim, em uma metáfora sobre a contradição entre avançar e permanecer. O corpo utilizado como instrumento na produção musical retorna como centro da narrativa audiovisual.
Essa integração entre linguagens foi aprofundada durante o hiato. No período longe da rotina da banda, os irmãos ampliaram a atuação na direção criativa, trabalhando com artistas, marcas e projetos visuais.
Álbum ocupou espaços inesperados
Antes da chegada às plataformas, o Medulla apresentou o repertório em um circuito de audições presenciais. A proposta levou o disco para lugares cotidianos e retirou sua primeira escuta do fluxo acelerado das redes sociais.
Após uma corrida pelo Minhocão com a Bad Running, o público ouviu o álbum no escritório da marca. Movimento, esforço físico e respiração foram ligados à ideia de que toda transformação começa com um primeiro passo.
Na Soap Club, uma lavanderia se tornou ambiente de audição. Na Casa Cósmica, Keops e Raony construíram um jardim no centro da sala. O circuito também chegou à Macro Bar e Pista, em Curitiba, com a exibição do primeiro visual e uma conversa sobre direção criativa.
Uma década depois
“No Dia Que Tudo Mudou” sucede “Deus e o Átomo”, lançado em 2016, e representa a primeira obra completa concebida para a nova formação em duo.
Com quase 20 anos de trajetória, o Medulla soma milhões de reproduções e visualizações, já passou por festivais como Lollapalooza e Primavera Sound e realizou turnês pela Europa. Sua comunidade de fãs ficou conhecida como “O Movimento”.
A turnê do novo álbum estreou no Rio de Janeiro e segue por Belo Horizonte e São Paulo. No dia 30 de agosto, o duo apresenta o espetáculo na Casa Natura Musical, com novo repertório e cenografia inédita.
Uma década após o último disco, Keops e Raony não retornam para ocupar o lugar deixado pelo antigo Medulla. “No Dia Que Tudo Mudou” registra o momento em que os irmãos deixam esse lugar para trás e constroem outro.

