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Música

DUNA transforma instabilidade afetiva em disco

Redação28.07.2026
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Aproximação, afastamento e silêncio mediado por telas: esses são os ingredientes do novo disco de DUNA, projeto em duo formado por Everton Behenck e Guilherme Rech, integrante também da banda Lã e do projeto Amigo Imaginário. O trabalho observa relações afetivas marcadas por instabilidade, desejo e contradição, características cada vez mais comuns nos relacionamentos contemporâneos.

Acompanhando o lançamento, o duo apresenta o videoclipe do single “Sal & Sombra”, dirigido por Carol Delgado, que aposta em inteligência artificial como linguagem narrativa.

Um território que muda de forma

O próprio nome do projeto carrega significado. A duna, que se transforma conforme o vento e o deslocamento do corpo, serve como metáfora para relações que se reorganizam o tempo todo, alternando leveza e sufocamento, proximidade e desgaste. Nas faixas do disco, o amor deixa de ser promessa de estabilidade e passa a ser retratado como movimento contínuo — feito de avanços, recuos e tentativas de permanência.

Desenvolvido ao longo de 2024, o álbum nasce do interesse em transformar experiências cotidianas de aproximação e ruído emocional em pequenas cenas musicais. Nessas cenas, a intimidade aparece constantemente atravessada pelo modo como as pessoas se relacionam hoje, quase sempre mediado por mensagens e silêncios digitais.

Criação mediada pela distância

Por outro lado, o próprio processo criativo do disco reflete seu tema central. Everton, em São Paulo, e Guilherme, em Florianópolis, construíram o projeto inteiramente à distância, trocando ideias e finalizando as canções por mensagens. Dessa forma, a mediação tecnológica que atravessa o conteúdo das músicas também esteve presente na própria produção do trabalho.

As bases criadas por Guilherme deram origem às melodias e letras de Everton, pensadas como cenas com início, tensão e consequência. O resultado é um conjunto narrativo que se escuta como um arco emocional coeso, quase um roteiro sonoro sobre os altos e baixos de um relacionamento.

Sonoridade íntima entre litoral e madrugada

Sonoramente, o disco aposta em uma estética lo-fi intimista, com vozes próximas e arranjos que sustentam o clima sem disputar espaço com a narrativa. A atmosfera remete a calor, litoral e madrugada, criando um cenário em que romance e ruído convivem lado a lado.

A captação e edição de vocais ficaram a cargo de Lou Schmidt, da AntFood, enquanto a mixagem e masterização foram assinadas por Fernando Ianni. Juntos, esses elementos reforçam a proposta de um disco que soa próximo, quase confessional.

Faixas como capítulos de uma relação

Enquanto isso, as canções percorrem diferentes fases de um mesmo vínculo: o impulso de bloqueio que convive com a recaída, o pós-relacionamento vivido na tela, a insistência diante do silêncio, o respiro ilusório da reconciliação, a travessia imperfeita de quem ainda tenta acreditar, o jogo afetivo como mecanismo de defesa e, por fim, a madrugada como espaço da recaída sem glamour.

As faixas se organizam, assim, como capítulos de uma história construída na fricção entre o desejo de permanência e a vontade de fuga.

“Quando existe agressão física ou uma violência muito explícita, é fácil identificar uma relação tóxica. Mas existe uma zona cinza onde quase todo mundo já esteve: até onde é uma dificuldade natural da relação? Até onde é desgaste? E quando começa a ultrapassar um limite? Nem o disco nem o clipe querem responder isso de forma definitiva – porque cada pessoa sabe os próprios limites. Mas a discussão está no ar.”

A imagem dos porcos-espinhos

O clipe de “Sal & Sombra”, dirigido por Carol Delgado, utiliza inteligência artificial para deslocar a estética de animações populares para situações adultas, marcadas por conflito, desejo, recaída e silêncio.

A narrativa acompanha dois porcos-espinhos que tentam se aproximar, mas se machucam ao encostar — síntese perfeita do núcleo do projeto: a dificuldade de sustentar a intimidade quando o próprio afeto carrega espinhos.

Por fim, DUNA entrega um projeto que não busca fechar respostas sobre relacionamentos contemporâneos, mas abre espaço, através da música e da imagem, para uma reflexão sobre os limites entre desgaste natural e desgaste tóxico em vínculos cada vez mais mediados pelo digital.

Serviço

  • Projeto: DUNA (Everton Behenck e Guilherme Rech)
  • Single e clipe: “Sal & Sombra”, dirigido por Carol Delgado
  • Disco disponível no Spotify
  • Clipe disponível no YouTube

Foto: Divulgação

DUNA transforma instabilidade afetiva em disco
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Redação

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