Segundo pesquisa do Data Sebrae, o Brasil tem 10 milhões de mulheres à frente de negócios, muitas delas enxergando no empreendedorismo uma forma de equilibrar sustento e cuidado com a família. Foi com esse propósito que a chef Flávia Alves criou o Quintal de Mãe, restaurante de culinária afro-brasileira que se tornou um polo de cultura e ancestralidade negra em Paraty, no Rio de Janeiro.
Conhecida na cidade como Flavinha, ela se aproximou da cozinha ainda criança, anotando receitas assistidas na televisão. Na adolescência, vendia salgados e bombons na escola e, em seguida, trabalhou vendendo pão de queijo com pernil na barraca da Tia Preta, cozinheira renomada e talentosa de Paraty.
Experiência se espalhou por diferentes cidades
A trajetória profissional de Flávia se expandiu além da Costa Verde. Ela teve seu primeiro restaurante no Centro Histórico de Curitiba, trabalhou na Bahia e acumulou experiências em festivais, eventos e serviços de catering. Esse percurso, dessa forma, ajudou a construir o repertório técnico e cultural que hoje define a identidade do Quintal de Mãe.
Após o nascimento do filho Tom, em setembro de 2016, ela passou a servir almoços na própria casa. “Precisei criar um modelo de negócio que atendesse a minha necessidade e linguagem de trabalho. Lembro das conversas animadas com amigos, discutindo qual seria o nome dos encontros mensais que, aos poucos, se tornaram quinzenais e depois semanais”, conta.
Afroturismo reconhece o valor cultural da casa
Hoje, o Quintal de Mãe é mais do que um restaurante: tornou-se um espaço de acolhimento, memória e celebração da cultura afro-brasileira. Livros sobre religiosidade, referências aos orixás e obras de artistas nacionais compõem o ambiente, remetendo à ancestralidade negra.
Assim, o espaço passou a integrar o roteiro de afroturismo de Paraty, em parceria com a Black Studio Stories, agência internacional sediada em Londres. Aos 45 anos, Flávia celebra o crescimento de um negócio que fatura cerca de R$ 700 mil por ano, gera empregos, movimenta fornecedores locais e se consolidou como referência em gastronomia afro-brasileira, turismo cultural e empreendedorismo negro.
Negócio movimenta economia da região
Com o crescimento da marca, a oferta de produtos também se ampliou. O Quintal de Mãe passou a prestar serviço de catering em eventos particulares e institucionais para grandes empresas, como Nubank e Netflix, além de participar de produções audiovisuais, como o longa-metragem “sobre Dias”, sobre a jornada do navegador brasileiro Amyr Klink.
No campo cultural, o restaurante foi selecionado para o afroturismo de Paraty, oferecendo aulas de culinária, e participou do livro internacional The Good Travel, representando a cidade por meio da famosa feijoada da Flavinha, um dos carros-chefe da casa.
Por outro lado, a estrutura construída ao longo dos anos permitiu que produções que antes buscavam fornecedores em outras cidades passassem a contratar serviços locais. Segundo Flávia, esse movimento gera impactos diretos na economia de Paraty, fortalecendo fornecedores e criando oportunidades para diversas famílias da região.
Hoje me reconheço muito mais como empresária e agente de transformação social. O empreendedorismo também é uma ferramenta de impacto. Todos os dias fazemos escolhas sobre quais profissionais contratar, quais fornecedores fortalecer e onde os recursos vão circular. Isso contribui para que mais oportunidades cheguem à comunidade.
Espiritualidade orienta cada preparo da cozinha
Iniciada no candomblé, Flávia também expressa sua vivência espiritual na proposta gastronômica da casa. A cozinha é inspirada nos saberes ancestrais, na ritualística do alimento e no cuidado presente em cada preparo. “Quando cozinho, sinto que estou trazendo de volta meus ancestrais”, afirma.
Enquanto isso, a atuação do Quintal de Mãe também se firmou como um importante polo cultural da cidade. O espaço é berço do Samba das Trabalhadoras, movimento criado dentro do restaurante para fortalecer a cultura popular, o protagonismo feminino e a valorização do matriarcado.
Cultura popular ganha as ruas no carnaval
A mistura de culinária afro-brasileira e axé atravessou a cozinha e chegou às ruas da cidade com o bloco “Carnaval Quintal da Folia”, evento que já se consolidou como referência na valorização da cultura e economia local, acolhendo foliões e turistas. “Este não é apenas um restaurante, é um centro de cultura alternativa”, diz Flávia.
Por fim, ela reflete sobre o papel que ocupa hoje na cidade. “Paraty é uma cidade que está sob os olhos do mundo, e sinto uma grande responsabilidade por ser uma referência no meu segmento. Tenho orgulho de construir um negócio que cresce levando outras pessoas junto, gerando trabalho, renda e oportunidades para a comunidade. Como diz a ativista e filósofa Angela Davis: ‘Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela’”, comemora.
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