Panorama POP

Bares de Curitiba usam ciência para reinventar drinks

Existe um movimento silencioso ganhando força nos bares contemporâneos, e ele começa muito antes de o coquetel chegar ao copo. A incorporação de princípios da química dos alimentos vem se tornando ferramenta central de criação, com técnicas como clarificação, emulsão, extração e controle ácido deixando de ser recursos pontuais para estruturar cardápios inteiros de bares autorais.

Mais do que uma busca por inovação estética, o objetivo é técnico: organizar sabores, controlar textura e garantir consistência. No Testarossa, em Curitiba, esses princípios orientam diretamente o desenvolvimento da coquetelaria da casa.

O objetivo final é impressionar pelo resultado no copo. A prioridade é o que se bebe, o que se experiencia. Não estamos falando de fogo, fumaça ou enfeites mirabolantes.

A frase é de João Pedro Penassi, sócio do Testarossa, e resume bem a lógica que guia a equipe. No entanto, por trás dessa simplicidade aparente, existe um processo técnico bastante elaborado.

Leite e clarificação em ação

A clarificação figura entre as técnicas mais versáteis nesse contexto. No Fragolatte, o uso do leite promove a coagulação das proteínas, que capturam partículas sólidas, taninos e excessos aromáticos.

Esse processo não apenas deixa o coquetel translúcido, como também suaviza amargores do Aperol, integra especiarias como a pimenta-da-jamaica e cria uma textura mais sedosa.

No Tiramisu Fizz, por sua vez, a clarificação permite trabalhar ingredientes naturalmente densos, como café, mel e cumaru, de forma leve. Assim, abre-se espaço para a carbonatação sem que a profundidade de sabor se perca.

Gomas e aquafaba na textura

A construção de textura também passa pela química. No Pesto Gimlet, o azeite de oliva, que naturalmente se separaria do líquido, é estabilizado por meio de emulsificação com um blend de gomas.

Esses agentes permitem que o sabor do azeite se integre ao coquetel sem pesar ou separar no copo. Além disso, o manjericão fresco preserva compostos aromáticos voláteis e garante frescor vegetal à bebida.

Já no Parmigiano Sour, a técnica atua diretamente na percepção sensorial. A aquafaba substitui a clara de ovo como agente emulsificante, criando uma espuma estável, enquanto o Parmigiano Reggiano ralado adiciona glutamato natural, responsável pela sensação de umami.

Esse diálogo entre acidez, doçura, salinidade e gordura faz com que o coquetel evolua na boca, lembrando mais um prato do que um coquetel tradicional.

A caprese em formato líquido

O Caprese Martini explora a extração de sabor com controle preciso de textura. A partir de águas aromáticas de tomate, burrata e azeitona, o bar mantém a intensidade de sabor com controle absoluto de gordura, salinidade e transparência.

O jerez fino entra como elemento de conexão, trazendo mineralidade e transformando o clássico vodka martini em uma releitura líquida da salada caprese. Portanto, o drink se torna um exemplo direto de como técnica e criatividade podem se complementar.

Simplicidade como resultado final

Apesar do embasamento técnico, nada disso é apresentado de forma complexa ao cliente. No Testarossa, a lógica funciona de maneira inversa: quanto maior o rigor no processo, mais simples deve ser a experiência final.

A gente parte de sabores que as pessoas já conhecem, como pesto, tiramissu e caprese, e traduz isso em coquetéis. A técnica está ali para garantir precisão, mas a leitura precisa ser imediata.

Por fim, essa combinação entre ciência aplicada e sabores familiares tem moldado uma nova fase da coquetelaria autoral, cada vez mais presente nos bares contemporâneos.

Serviço

Foto: Divulgação

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