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Música

‘Até Amanhã’: Sonora Fantasma lança single inspirado em despedida do pai

Redação31.07.2026
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A Sonora Fantasma inaugura uma nova fase com uma canção que nasce de um corte profundo: o último encontro entre Diego da Costa e seu pai. Até Amanhã, primeiro single do álbum Sonora Fantasma te ama, transforma uma despedida aparentemente comum em narrativa sobre ausência, rotina e o inesperado fim de um vínculo.

Uma despedida cotidiana que se torna definitiva

Diego escreveu Até Amanhã depois da morte do pai, revisitando o momento em que se despediu acreditando que os dois se veriam no dia seguinte. O título da faixa condensa justamente essa promessa embutida em tantas despedidas diárias: a certeza de que haverá um amanhã para retomar conversas, abraços e relatos de tudo o que aconteceu na ausência.

Na canção, o “até amanhã” deixa de ser apenas fórmula de despedida e passa a carregar a consciência de que, em muitas situações, esse amanhã nunca chega. A frase “De onde sou, à noite estou só” começou a ecoar na cabeça de Diego logo após a perda, pedindo uma música que conseguisse acolher o refrão. Foi a partir dessa linha que a composição começou a ganhar forma.

Referências, parceiros e construção da faixa

O primeiro impulso sonoro surgiu depois de um show intimista do Yo La Tengo no Cine Joia, em São Paulo. Diego imaginou que a música poderia ser uma mistura entre o universo indie da banda e a energia de Jorge Ben. A fusão, como ele reconhece, não se concretizou da forma planejada, mas a ideia serviu de norte para a base de guitarra que sustenta a canção.

A composição caminhou até chegar ao produtor Rafael Sartori, que assumiu a construção dos arranjos e acrescentou baixo e sintetizadores, ampliando o clima de melancolia e tensão afetiva. Mesmo com a estrutura definida, a letra seguia sendo um desafio. Tão pessoal quanto difícil de traduzir, exigiu a colaboração de Vinícius Cabral, músico das bandas Godofredo e The Innernettes, que ajudou a encontrar as palavras certas.

Em menos de uma hora, Vinícius devolveu a letra com ajustes que organizaram o sentimento em versos. Desde o início, o título já era Até Amanhã, mas Diego ainda relutava. Foi o parceiro quem o incentivou a abraçar o nome e o lembrou da canção homônima de Noel Rosa, levando o compositor a revisitar essa referência.

Durante a gravação, Diego apresentou a música para Lu Toller, responsável pelos arranjos vocais do álbum. De forma imediata, Lu criou um arranjo de voz com as manas do Vozeiral e, num improviso, incorporou à letra a frase “até amanhã, se Deus quiser”, conectando o single à tradição da canção brasileira e ao universo de Noel.

Entre indie, samba e bossa na mesma tristeza

No arranjo, a Sonora Fantasma busca um ponto de encontro entre indie rock, samba e bossa nova. A intenção é clara: a tristeza que move a canção precisava ser atravessada por elementos brasileiros, sem que isso transformasse o clima em algo leve ou simplista. O resultado é uma faixa que carrega batidas, harmonias e timbres que remetem ao Brasil, mas preserva a densidade da experiência de luto.

“Ela tem um tanto de indie, um tanto de Brasil e é a mais dolorida das canções desse álbum. Talvez não”, provoca Diego, abrindo espaço para que o ouvinte faça sua própria leitura da intensidade das músicas. Até Amanhã, porém, se destaca justamente por ser a última composição feita para Sonora Fantasma te ama, condensando o percurso de perdas, pausas e retomadas que marcaram a gestação do disco.

Do mundo em colapso às dores particulares

Sonora Fantasma te ama começou a ser escrito em 2022 e atravessou três anos de mudanças e interrupções. O disco chegou a ser planejado para sair antes, mas questões pessoais de Diego acabaram definindo um novo ritmo para o projeto. Ao contrário de Adeus Mundo Véio, criado no começo da pandemia com olhar voltado para política, capitalismo, tecnologia e futuros possíveis, o novo álbum concentra a atenção em dores individuais.

No trabalho anterior, o compositor ainda cultivava a esperança de que a experiência global poderia provocar uma transformação coletiva. As letras falavam de tentar mudar hábitos, livrar-se do domínio de bilionários e grandes empresas de tecnologia. Com o tempo, a percepção mudou. “Por fim, o que se mostrou foi o contrário. Estamos completamente dominados”, resume Diego.

Lançado em 2021 pelo selo Abbey Roça, com distribuição da Tratore, Adeus Mundo Véio trazia a urgência do punk feito por conta própria e referências de rock alternativo dos anos 1990 e 2000. Músicas como O Provável e o Possível, Vento do Leste e A Cigarra e a Formiga seguiram nos shows, ajudando a construir a identidade da Sonora Fantasma e rendendo ao álbum espaço na lista de melhores lançamentos do podcast Silêncio no Estúdio.

Um álbum mais íntimo e bucolista

No novo disco, a inquietação permanece, mas deslocada para experiências próximas. Sonora Fantasma te ama é descrito por Diego como um álbum mais intimista, centrado em perdas pessoais, lutos, finais de relacionamentos e sentimentos de não pertencimento. A imagem do exílio aparece, inclusive, como exílio de si mesmo, refletindo conflitos geracionais e crises de identidade.

Há também um componente de bucolismo nas letras, que evocam o campo, o contato com a terra e a relação direta entre ser humano e natureza. Essa dimensão rural e contemplativa convive com a dor, sugerindo que o afastamento do caos urbano pode servir tanto como refúgio quanto como cenário para enfrentar fantasmas internos.

Brasil 70 e indie: um encontro em estúdio

Na produção, Diego e Rafael Sartori retomam a parceria estabelecida no primeiro álbum, com o músico assinando as composições e dividindo a produção, enquanto Rafael assume os arranjos. Desta vez, o duo mira o trabalho de estúdio dos discos brasileiros dos anos 1970, apostando em coros, metais, cordas e instrumentos acústicos, sem abrir mão de guitarras, sintetizadores e ruídos.

Entre as referências, aparecem Raul Seixas, Erasmo Carlos, Sá, Rodrix e Guarabyra e o universo do Clube da Esquina, atravessados por influências de indie e rock alternativo. “Eu brinco que o álbum é uma mistura de Flaming Lips com Clube da Esquina”, diz Diego, consciente de que a fórmula não dá conta da complexidade do disco, mas funciona como convite para quem ainda não conhece a Sonora Fantasma.

Oito faixas, campo, funk e fantasmas

Sonora Fantasma te ama terá oito faixas. Vida no Campo, lançada como single em 2024, abre o álbum em uma nova versão que começa com viola caipira e, em seguida, se transforma com entrada de sintetizadores, uma passagem de clima industrial, coro feminino e um riff de violoncelo, aproximando paisagens rurais e experimentação sonora.

O repertório inclui ainda O Brilho das Pedras, de Sá, Rodrix e Guarabyra, recriada com uma batida de funk nos versos, primeira versão registrada pela Sonora Fantasma. Ao incorporar o ritmo, a banda reforça a intenção de fazer um disco brasileiro por caminhos diferentes, conectando referências setentistas a sonoridades contemporâneas.

Até Amanhã chega, assim, como síntese de muitas dimensões desse novo trabalho: a dor pessoal que molda a letra, a presença de parceiros criativos como Rafael Sartori, Vinícius Cabral e Lu Toller, o diálogo entre indie, samba e bossa e o desejo de que a música carregue, ao mesmo tempo, a fragilidade da despedida e a força da memória que insiste em permanecer.

Foto: Divulgação

‘Até Amanhã’: Sonora Fantasma lança single inspirado em despedida do pai
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