Em 2026, “Tudo Preto: uma re_vista” chega ao Teatro I do CCBB RJ para celebrar um marco histórico do teatro brasileiro. A estreia em 31 de julho retoma o espetáculo “Tudo Preto”, apresentado em 1926, e homenageia os 100 anos da Companhia Negra de Revistas, primeira companhia negra de teatro registrada no país.
Idealizada, dirigida e escrita por Mauricio Lima e Tainah Longras, a peça fica em cartaz até 13 de setembro. A temporada terá sessões de quarta a sábado, às 19h, e domingo, às 18h, em uma proposta que revisita o passado sem abrir mão de uma leitura atual.
A montagem nasce da pesquisa iniciada em “VINTE!”, peça estreada em 2025 no CCBB RJ e premiada no Shell 2026 na categoria Texto de Melhor Dramaturgia. Agora, a dupla volta ao mesmo território criativo para ampliar a investigação sobre os movimentos estéticos negros dos anos 1920 e o lugar desse legado na cena contemporânea.
Um reencontro com o arquivo
O espetáculo propõe um reencontro com a Companhia Negra de Revistas e com a sua importância como patrimônio cultural e político. Além disso, questiona a versão oficial da história ao confrontar a centralidade atribuída à Semana de Arte Moderna de 1922 e à branquitude intelectual na formação da identidade nacional.
No palco, Afroflor, Beà Ayòóla, Juliane Cruz, Lucas Sampaio, Lux Nègre e Nely Coelho formam o elenco de atores-cantores. Em diálogo com o texto original e com os artistas que antecederam a montagem histórica, eles constroem uma cena de celebração, memória e reinvenção.
“A revista, gênero teatral historicamente subestimado, visto muitas vezes apenas pela ótica do entretenimento, nos ofereceu um campo fértil para experimentação de linguagem e criação de cenas onde o pensamento crítico, o teatro, a dança e as sonoridades dialogam sem hierarquias, num importante movimento de tensionamento com a tradição e outros modos de fazer e pensar o teatro”, afirma Mauricio Lima.
Tradição e presente
O texto de 1926 acompanha Benedito e Patrício em busca do elenco da primeira Companhia Negra de Revistas do Brasil. A partir daí, surgem personagens que desenham um retrato da vida urbana negra no Rio de Janeiro do começo do século XX, poucas décadas após a abolição da escravatura.
Com humor e crítica, os personagens ocupam o palco como cidadãos e falam por si. Na nova montagem, essa estrutura é reativada como matéria de reflexão sobre memória, apagamento e permanência.
Tainah Longras afirma que a peça continua a pesquisa sobre a companhia e também sobre a construção estética da obra. Segundo ela, a montagem experimenta sonoridades, dispositivos contemporâneos e referências visuais retiradas de fotografias e arquivos corpóreos dos anos 1920.
A encenação também mantém a escultura negra vista em “VINTE!”, agora como elemento central da cenografia. Júlia Vicente, responsável pela direção de arte e pelo figurino, explica que a proposta é materializar o volume histórico da pesquisa e revisitar os códigos visuais dos anos 1920 a partir de outro ponto de vista.
Música e movimento
A trilha sonora trabalha com polifonia e contracanto, em uma estética de colagem que também reaproveita referências de “VINTE!”. Muato, diretor musical, aposta na interação entre instrumentos acústicos e sons eletrônicos, com destaque para os sopros e a referência a Pixinguinha.
Na criação do movimento, Rômulo Galvão cita Josephine Baker como referência importante e explica que o processo parte de células de ação e ritmo para construir novas sequências coreográficas. Para ele, o movimento reafirma o corpo negro como lugar de conhecimento, memória e linguagem.
Foto: Ira Barillo

