Rir e chorar quase ao mesmo tempo: essa é a proposta de “Sob o Céu de Isaías”, romance de estreia do escritor fluminense Vítor Kappel. A obra usa a tragicomédia para acompanhar o amadurecimento de um estudante que enfrenta as turbulências do último ano escolar enquanto sonha em deixar para trás sua cidade natal.
Lançado pela Editora Patuá, o livro reúne texto de orelha da escritora Carol Bensimon e texto de quarta capa assinado por Helena Terra. Por fim, vale destacar que a obra já chega com reconhecimento: foi contemplada pelo Prêmio Talentos Helvético-Brasileiros e conquistou o 2º lugar no Tato Literário – Prêmio com.tato de Literatura Independente.
Crime, afeto e descoberta
A trama gira em torno de Isaías, que se envolve com uma rede criminosa ao mesmo tempo em que constrói um vínculo afetivo transformador com Bernardo, colega de classe. Essa relação conduz boa parte da narrativa, ambientada em uma cidade pequena que oscila entre sensação de liberdade e atmosfera opressora.
Vítor Kappel explica que essa ambientação nasceu da observação do cotidiano brasileiro. “Muito da ambientação reforça o grau contraditório entre a sensação de liberdade e o caráter de constrição de cidades menores no país. No caso, cresci no interior do Rio, mas creio que todos nós conhecemos e tivemos experiências em lugares aparentemente tranquilos, mas com atmosferas um tanto opressoras”, justifica o autor.
Enquanto isso, o protagonista carrega traços do próprio escritor, ainda que de forma exagerada. “Se eu dissesse que o Isaías não tem nada de mim, estaria mentindo um pouquinho. Mas também não consigo dizer que sou eu no papel. Ele está mais para um reflexo de espelho de parque de diversões: uma imagem comicamente distorcida. E mais trágica também”, aponta Vítor. “A verdade é que Isaías é muito mais esperto e interessante — a vida real tem menos graça. Eu não fui colocado tanto à prova quanto ele.”
O tom agridoce da narrativa
Um dos aspectos mais elogiados da obra é justamente essa mistura entre leveza e drama. Carol Bensimon, responsável pelo texto de orelha, destaca como esse humor pouco comum aproxima o leitor da história.
As aventuras desse herói singular, Isaías Petit, são narradas com um humor agridoce, incomum para um romance de formação queer, e não são necessárias muitas páginas para que o adolescente perspicaz das ideias esquisitas ‘salte’ do livro e desperte em nós uma profunda empatia.
Da mesma forma, Helena Terra, autora do texto de quarta capa, ressalta os elementos tragicômicos da obra. Ela recorre a uma citação de Dostoiévski para falar sobre o protagonista: “a alegria no homem é o traço que mais o revela, e por inteiro”. Para Helena, Isaías “é um menino que não adia a vida e que é capaz de reinventar-se na cidade pequena em que vive, na escola e em casa”.
Retrato de um país com preconceitos
No entanto, o humor presente no livro vai além do entretenimento. Ele serve também como recurso para expor preconceitos e contradições recorrentes no Brasil. Ao lidar com seus próprios dilemas sobre sexualidade, Isaías acaba encarando um resumo das mazelas nacionais.
“Há um paralelismo poderoso em seu ritual de passagem para a fase adulta, ao ter que enfrentar tudo isso com certa graça e tenacidade”, afirma Vítor. Segundo o autor, “o livro aborda um puritanismo que assola o país e que se manifesta impondo códigos de conduta em nome de valores ‘tradicionais’, sendo o colégio mais um desses espaços”.
Esses preconceitos ficam ainda mais evidentes à medida que Isaías e Bernardo se aproximam. Por outro lado, mesmo cercados por perigos, os dois constroem uma relação repleta de carinho — o que leva o protagonista a acreditar na possibilidade de escrever sua própria história, fora dos moldes impostos pela sociedade.
Referências que moldaram a obra
Para encontrar o tom certo da narrativa, Vítor Kappel buscou referências em “O Quarto de Giovanni”, de James Baldwin, e em “As Desventuras de Arthur Less”, de Andrew Sean Greer. Este último, segundo o autor, ajudou a moldar a leveza presente em “Sob o Céu de Isaías”.
“O humor aparece como uma salvação. Mesmo na tragédia, ou até por conta dela, Isaías traz em seus ombros uma amostra dessa sagacidade. O protagonista diversas vezes se atrapalha, ‘tropeça’, mas é justamente no movimento cômico que surge a graça existencial”, completa Vítor. “A prosa não nega o sofrimento de Isaías, mas o envolve num abraço leve, como quem diz: sim, tudo é complicado — mas veja como é bonito tropeçar no meio do caminho.”
Sobre o autor
Vítor Kappel nasceu em Nova Friburgo (RJ) em 1986 e atualmente vive no Rio de Janeiro (RJ). Formado em Engenharia de Produção pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Gestão Empresarial com Foco em Inovação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele passou a última década envolvido com apoio a projetos audiovisuais, pesquisa e inovação no país, antes de se voltar à ficção.
“Sob o Céu de Isaías” marca sua estreia como romancista e já chega com reconhecimento: recebeu o Prêmio Talentos Helvético-Brasileiros e ficou em 2º lugar no Tato Literário – Prêmio com.tato de Literatura Independente.
Serviço
- Livro: “Sob o Céu de Isaías”
- Autor: Vítor Kappel
- Editora: Patuá
- Texto de orelha: Carol Bensimon
- Texto de quarta capa: Helena Terra
- Premiações: Prêmio Talentos Helvético-Brasileiros e 2º lugar no Tato Literário – Prêmio com.tato de Literatura Independente
Foto: Divulgação

